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12 junho, 2011

Ecos








Vivo sobre as circunstâncias que a impetuosidade psíquica alastra na superfície do que é concreto. Um vai e vem de rumores, de metafísica e de música espalhada pelo chão da minha realidade. Não tenho de facto uma voz espessa, nem uma abstracção ingénua. Vivo como vivem as raízes, crescendo da medula da terra, hipnotizadas pela luz e pelo encanto dos versos soltos num outono inóspito e incandescente. Vivo dos sentimentos omissos num coração condenado aos pêndulos do tempo, atado pelas ébrias fábulas que os sonhos e as cicatrizes fabricam na sensibilidade da minha vida. E tudo, ao que parece, não passa de um esoterismo inconsciente e vago, para que os meus passos deixem sempre entre a distância do pretérito imperfeito e a hora exacta onde me mostro, um mecanismo ilusório de lógica, de sobriedade, de mil e um feitiços que se acendem por detrás do que possa ser explicado, na orla das minhas pegadas incoerentes e sujas.







Assim, rasgando a minha própria imagem, eu poligonal, atravessando as torres tombadas, sem respostas nem posse, vou desprendendo o meu caminho sobre a transparente e sincera sumptuosidade do universo. Vou arquitectando tudo, com pássaros atulhados de sinfonias e orquestras que desconheço, engolindo um fausto de orquídeas que me nascem dos dedos queimados de luta e de cobardia. Porque somos cobardes, e por vezes heróis. Mas mesmo assim, eu permito à minha esperança encontrar-me sempre nessas hastes de perfeição, nessas orquídeas sublimes que bebem chuva e orvalho, que se reúnem nas metáforas das minhas reflexões existenciais; eu permito que a esperança se abra na minha boca, com espasmos e cor, com essas pétalas de seiva misteriosa que prende a alma ao mundo, o destino ao corpo.






Para onde vou nesta valsa que esbracejo com os meus fantasmas interiores, é a apenas um cálculo mental que assumo ser teórico na rotação expressionista da minha identidade. Não sou feito apenas de orgulho. E custa-me a crer neste ódio que se forma numa espécie de cuspo dentro da minha boca. Tenho as pálpebras cansadas, por vezes. Tenho as unhas doridas de esgravatar poesia na interioridade dos corpos magnéticos que esvoaçam na humanidade. Não consigo ofuscar a minha essência que sempre entornou a vida no seu estado puro. Trago esta cumplicidade e vivo a ardência da vida com asfixia e bofetadas. Mas mesmo assim, sinto-lhe o sangue, a determinação da sua magia. Porque a sua criatividade podendo ser esperma e amor, é possível respirar-lhe a sua cognitiva atmosfera de incandescências e fulgores. Existe um ar que ondula nos domínios da natureza, um ar unânime e macio, um ar que me deixa despojado de candura e de leveza, um ar que atravesso caminhando com a simplicidade deslumbrante de um homem livre. E talvez por isso, sempre fui humano e clandestino.










Sinto-me transitório e nu, aspirando as orbitas dos silêncios e as gotículas semióticas do amor que se escondem debaixo do corpo. A vida estala do meu umbigo. Existe uma matéria que me deixa suspenso, anárquico, vespertino, evaporando tudo aquilo que sou para a constelação das estrelas, para o timbre e o tacto completamente eufórico do meu estado psicanalítico. E dia após dia, a água do que posso conquistar, escorre-me mãos cerradas com a impulsividade e a força abusiva de ser quem sou. Estremeço nesta liberdade íntima e solar, esta liberdade telepatia dos meus sonhos, das minhas fraquezas, daquilo que abandono; podendo ser no meu livre arbítrio condutor dos meus oráculos, da minha alma e da minha criação abismal. É aqui que sinto a minha energia como um grito que da garganta trespassa - mudado, sustido, inalteravelmente profundo como um oceano.










E tudo que vou ascendendo pela agitação das noites, torna-se bruto e sólido sem que eu consiga compreender a sua coesão, mas que lança sobre os artifícios das coisas a minha intemporalidade, a minha nudez, a minha silhueta incendiada de sons e pensamentos que teimo em ser-lhes parte fertilizada e conectada. Não me dissimulo nem me guardo, porque não sou hóspede de mim nem ornato da minha vida. Trago vínculos apenas, montanhas que atravesso sob a luz da lua, num pacto com a minha interioridade, com a minha solidão, com os restos da vozes que dentro de mim se pronunciam sem que eu lhe mude as palavras, sem que eu lhe fira a esfinge imaginária da sua presença. Fogueiras e lobos. E as montanhas surgindo sem fim pelos limites da minha razão e da minha humildade.







Mas se eu pudesse, os meus olhos brilhariam mais. Gostaria que espreitassem bem lá no fundo a sua escuridão. Vivem lampejos e pés frios que mostram a fissura do meu surrealismo. Porque é um pouco linguístico ser-me por dentro. Mas ao redor da minha incorpórea sustentação, rebentam sonhos e ruas das minhas pupilas, trago poros vivos por onde eu me avanço e caminho, por onde eu me extravaso fundido na inspiração celeste deste mundo, nesta incerteza incurável do torpor que a vida fermenta num galope sem nome, sem ciências e sem anjos, sem profetas: apenas árvores que nascem dentro de árvores, apenas o céu nos seus teatros luminosos, apenas este chão articulado com o meu raciocínio e os meus sentidos. É uma profusão entusiástica germinando dentro do silêncio as palavras mais cristalinas. Sou eu, (invertido no meu espelho), são as minhas sonatas, as minhas planícies de desejo e de paixão e de vergonha.






E terei de viver com a incapacidade de não conseguir regressar aos bosques que perdi nesta viagem feita de milagres, de desassossego, poemas e vertigens. E terei de viver sempre intensamente. Porque eu sou eu e eu. E eu vivo dos fluidos da carne e do espírito, da minha incompatível imortalidade. Eu vivo da cratera dos orgasmos nos tentáculos da afectividade, nos braços atmosféricos da fantasia, nos trovões do toque e no baloiçar do instinto sobre a habitação do lume que o coração intensifica até aos gemidos das alturas. E vivo para os outros, sem mim. E dos outros renasço bilateral. E aceso na fórmula ressonante do sono da terra, eu sou água nas mãos da vida, entrelaçado pelos poderes da respiração em cada segundo animal e humano, vórtice de tudo em pleno suspiro, em plena metamorfose, abismo e aurora.







Mas olho para o mundo e vejo cada vez mais castelos, cada vez mais máscaras, bailarinas que tremem de medo em cima de um palco de prazeres inventados. E pergunto-me se saberei para onde ir quando o medo também me tomar, quando me doerem o joelhos e a amargura e o pranto pesarem nos meus sentimentos. Pergunto-me se estas prosas que ardem, serão instrumentos de loucura, ou até se mesmo me conduzirão a algum lugar. Ou será que conseguirei permanecer diante este espectáculo revestido de instantes e canções que nunca acabam? …







A impressão que a vida nos deixa é sempre um coisa tão complexa e tão misteriosa, que nunca sabemos se somos reais ou um resultado delirante da nossa constituição humana. A proximidade que existe entre mim e o universo é cada vez mais íntima, mas sobram estilhaços, sobra a cadência da vida que pulsa absoluta nas sombras da minha lucidez. Oiço os bombos e as veias e as películas. Oiço os comboios deixando um rasto de ruído e de saudade. E diante o meu corpo erguido às coisas tombadas - a minha vida.







Sei que envelheço e a aparência do que é concreto é um intervalo conceptual que me emociona. Vivo enquanto anoitece, enquanto as figuras e os fósforos da sobriedade se desfazem na humidade do tempo. Vivo perturbado, sensível, entre a esperança e as artes e os pesos das portas que fecho em segredo. E nesta velocidade, deixo pulsar os sintomas, deixo correr os rios, deixo em voo as minhas alienações, as minhas mãos analíticas, a minha sina frágil e invisível.

Olho para a vida como se quisesse beija-la; e nada sei da sua proliferação de deslumbramento. A vida é enigmática, como uma lua enorme que cresce nos braços da noite. Uma lua que vai transfigurando a profundidade do meu olhar, a opacidade interior das minhas palavras. E eu, invento que ela me compreende. E eu, invento que sou o seu reflexo solitário e distante. E nada mais sinto, senão um afastamento, um vazio, como se fosse seu filho, a sua mácula; e a vida fosse sempre algo que está longe, que não se pode tocar, senão projectar os olhos sobre a sua luz, sobre o seu encantamento embrionário e real.







Mas talvez nem eu mesmo compreenda o que eu sinto, o que eu sou. Às vezes penso que não sou mais do que um fundamento interior. Um colapso. Às vezes penso que não sou mais que uma busca incessante de respostas na profundidade do mundo. Vivo neste ímpeto onde me dissipo em riscos, onde me reconstruo em ruídos, possesso pelos espíritos e pelas espirais que me deitam sobre o cosmos. E nesta tontura, desfeito pela saliva do tempo, sou uma luminosidade desmantelada pelo esboço de mim próprio. Ecos.

16 maio, 2011

Pedra





Acordar sobre as pedras, digamos
estar vivo entre as espirais da lucidez,
embora com lágrimas, suspiros,
e algumas moedas na toda contorção
do corpo; estar vivo e lúcido,
como se essas moedas fossem ventre
quente, roda, buraco ou poema:
não será pedir de mais na hora
do som? E vivo, vivo para quem
se pelas cinco da tarde
no dia cinzento sobre o muro caiado,
a leitura responde
e o combate de quem sente o meu exército
no sangue, apenas terá o meu nome, o eixo
que tracei separando o que esqueci
entre o fogo, labareda de estrelas
no meu fundo,
e a palavra que restou
da constelação cerebral.

Eu estarei morto, animando com metáforas
e tambores a fragilizada povoação de insectos.
Eu nunca existo, mas deixo que me tomem a voz
e penetrem na noite
na noite dos meus devaneios, multiplicando-se
em luz, em vestígios, em segredo.

Acordar sobre as pedras, digamos escrever,
e afinal ter um corpo frio
tombado junto às ervas
e não ser corpo – um cego ouvindo os estrondos da guerra
sem fugir. Antecipemos: estar propositadamente
entre um livro para que me amem
em caso de frio ou vultos
embrulhados
sem cura dentro daquele lugar
onde dói, de facto, pronunciar palavras.
Por isso lemos - avançam-me.

Acordar sobre as pedras,
digamos, ser nuvem que se levanta do chão
e se despedaça, em tempos de fome,
numa súplica,
recolher as crianças para casa
porque vai chover
e chove,
ou biologicamente falando: a vida
que acaba repetida
mas sempre alterada, em som,
em forma, em lua talhada de inocência.

Sempre assim
até que de repente, quando já mais nada
parece fazer sentido,
acordar sobre as pedras, digamos,
ser uma pedra entre as pedras, muitas:
a pedra que a infância apertou nas mãos
e, intensamente, com ela pedra pedregulho
universo, ou unidade de alma concentrada,
a criança viu a chuva com os olhos em ciclo
de musas, cristais, surpreendida
na janela com um sonho qualquer
que agora escrevo - agora que o perdi,
digamos: solidão, relâmpagos, fraqueza
(e uma pedra a rolar,
a desfazer-se entre os meus dedos).

08 maio, 2011

O meu quarto




Hoje regressei ao meu quarto. Ainda trago páginas despenteadas com rascunhos rasurados e excertos de prosas inacabadas que não tive coragem para finalizar. Existe um certo travo a mofo que se foi impregnando pelas paredes com a humidade e as horas moídas de abandono e de segregação. (Não, não sou eu. Nem de longe nem de perto - não sou eu). Ou pelo menos não queria que assim fosse: um fóssil cheio de saudade e de silêncio.

Por isso, decidi voltar ao quarto, ao quarto desabitado; não para me deter numa cama de insónias e de monstros nem para enclausurar o corpo nestas paredes feitas com as sinuosidades do pensamento e com o revestimento do meu olhar dissolvido na solidez de tudo - porque também não me escapa a tinta amarelecida do tempo sobre a desarrumação das coisas, sobre a brancura do meu desassossego e da minha inocência.

Sim eu voltei, mas para tapar as fendas do chão que a esta hora permanece estendido, sempre frio e ruidoso na sua condição de soalho que foi esmagado com armários e objectos corroídos pela recusa e pela mudez, ou simplesmente pela inevitável vida compondo as suas harmonias e os seus buracos à superfície do que é concreto. Se sou sonhos e me despeço deixando essa vaga absurda sensação de vazio, essa sensação desamparando os objectos do meu quarto à mercê do silêncio e das partículas que deambulam pelo ar – então nesse caso - aqui não vive ninguém. E eu não posso deixar o meu quarto estalar, encolhido perante os clarões da lua, ouvindo vozes lá fora que nada significam mais que a perturbadora falha de palavras aqui dentro.

Por isso hoje regressei ao meu quarto. Irei abrir as janelas para engolir o vento. Irei escrever poalha de luz, brisa do meu ventre, de modo poético e filosófico (como eu prefiro), para que volte a encontrar quem sou neste argumento inventado. E sem qualquer receio, irei deixar a translação do mundo no seu circuito, sem alterar uma pequeníssima luminosidade de espanto ao seu redor: senão algumas faúlhas de sonhos que queimaram em silêncio, por detrás do meu nome, entre as primaveras e as mariposas que deixei fugir.

Talvez a vida nunca nos decepcione, mesmo quando depois de tudo já estar vencido ainda sobrevivam carícias sobre a nossa face inóspita, e nos sobressaltem com os seus rasgões de desejo as imperatrizes donas da lua, o amor ou as máculas, medusas, o quer que seja – o que a vida nos diz com o tempo, é que existe algo, algo que nos insinua, algo que nos transborda, algo que nos fornece coragem, simetria ou fluidos, fantasias anónimas despojadas no torpor da escrita, na nossa rotação expressionista, na nossa raiz vital que se ascende na pulsação do tempo e nos nossos sentimentalismos imediatos torneando, fecundando, este ventre incansável.

Não é apenas loucura ou máscaras ou beleza - é um modo que eu encontrei de visitar-me vivo, um modo de estar despido, longe das farsas, das faíscas e das condições climatéricas dos semblantes. Um modo de eu olhar o meu rosto ao espelho até que me surpreenda com o que disse, enquanto me vejo, e a minha alma estilhaça como se fosse uma substância real na inocuidade do mundo.

E, enquanto houver estuque e soalho, eu vou continuar a escrever. Com os olhos convulsos de saliva, desconstruindo dogmas e gritos, obcecado pela surdez irreal do amor e preenchendo de palavras lilases e eloquentes a profusão de todas as coisas; eu vou continuar a escrever sempre, com as mãos abertas à luz do encantamento, com todas as palavras incompletas delineando o silêncio, a escuridão tacteada do meu quarto.

25 fevereiro, 2010

A lua desta vez não voltou

A lua desta vez não voltou. A noite ficou vazia e eu tive medo de me afundar nas falésias onde tu te escondes e brilhas. Desta vez também não me despedi dos meus aliados nem fui lá fora ver o céu cinzento para imaginar que seria outro depois do infinito. Desta vez não quis ser só mais um corpo que se levanta para engolir o mar.
(Poderemos nós, decifrar à luz, os segredos que um coração esconde na sua intimidade? E para onde vamos nesta marcha inconstante, repleta de paradoxos existenciais e tambores que esmagam cada dia numa íntima justificação de contentamento? )
Olho para a massa que nos moveu até este poço e sinto uma angústia enorme por tudo o que não tive força de aprisionar, por tudo o que perpetuei atrás dos meus ombros, por tudo o que perdi numa repetição de figuras ilusórias que de nada me serviram e que permaneceram sempre bem no fundo do meu peito para personificarem a minha derrota, súbitas e ziguezagueantes pelas covas do meu caminho.
No entanto, sempre estive aqui diante das estrelas que desenhei no teu repouso. Sempre estive aqui na gestação dos versos que rolam pelo chão com o vento morno de Julho - aqueles versos emergentes de ardor que sempre nos impulsionaram à nossa transição de mundos para uma última fecundação nas órbitas da lua .
Sempre estive aqui com esta esperança aflita de que resistisses ao medo e ao vácuo que esta vida sopra só para nos assustar. Sempre estive aqui subindo e descendo as escadas, à tua procura, à procura da tua inundação de fulgor e de saliva. Sempre estive aqui, reunindo as palavras que o teu coração compõe, que o teu coração estremece, que o teu coração intensifica e prolonga na substância dos sonhos.
E agora, atravesso o quarto e os objectos são apenas objectos, a minha embriaguês é apenas um desencadeamento cru da minha solidão, sem qualquer moralidade nem aparência, apenas eu e a tua imagem desabitada, apenas eu e a cinza das minhas recordações.
Por isso é que desta vez não me levantei só para engolir o mar. Por isso é que desta vez não fui espreitar o céu cinzento nem me imaginei depois do infinito. Desta vez permaneci mudo diante os meus aliados e a noite vazia. Desta vez tive medo de te procurar nas falésias onde tu te escondes e brilhas. E a única certeza que trago, é a funda e visível certeza de que desta vez a lua não voltou.

As invisibilidades do Triunfo




Atravessei os impérios, atravessei as sombras e os fragmentos de toda a nossa existência. Atravessei os heróis amontoados sobre as estradas, à porta dos edifícios, defronte ao fogo, sempre inconformados com a mesma desilusão, sempre irrequietos com a mesma estranha vontade de partir, sem nunca conseguirem pronunciar uma só palavra entre a multidão e o medo, entre o eco subterrâneo que nos entrega à imprecisa consciência de luz e de abismo.
Atravessei com toda a minha convulsa febre, as memórias e as pedras indestrutíveis que todos fomos erguendo neste mundo de nuvens; neste mundo que com toda a ternura nos embala, nos persuade e nos agasalha. Afinal, acabamos todos por perdoar, acabamos todos por perceber a inutilidade da nossa raiva e da nossa covardia, acabamos todos por perceber como de algum modo tudo está envolvido numa misteriosa matéria que nos une, nos domina e, incontornavelmente, nos transforma.
A vida é guiada pelo contratempo dos obstáculos e do nosso ser excessivo de desejos e de paixão. Somos moléculas, erros, somos deuses e máscaras defronte a um espelho de contraditórios sentimentos; mas todos, todos respiramos o mesmo milagre, a mesma inspiração dos tolos que sobe aos palcos e aos planetas intactos, a mesma inspiração que faz com que o nosso silêncio expulse e expluda aplausos pelo amplo deslumbramento da alma.
Com o tempo, aprendi a viver com o riso, com o absurdo, com a compreensão e os nervos; mas sobretudo com a ironia e a cólera. Aprendi a dormir com os fracassos, as ameaças, com a terra que se esfarela no esvoaçar das sombras e no fundo grito do vazio. Por muitos motivos, aprendi a dominar os meus impulsos, aprendi a equilibrar-me sobre o chão onde a compreensão das coisas é um lugar frágil e solitário. E tudo isto, sem qualquer espécie de ordem ou de genialidade, senão um esforço mental para que esta tômbola de estrelas e de sentimentos que é o coração, nunca me fechasse a sua cratera de sonhos e de lava.
Por isso, acredito no mundo da forma como o vemos, como o exprimimos, mas também no modo como ele nos toca, nos abstraí e nos conquista. Acredito que mil cavalos atravessam os nossos sonhos todas as noites, fazendo estremecer o nosso corpo submerso de encantos e de irrefutáveis paixões; fazendo dos nossos dias extintos uma luta e uma vingança contra nós mesmos, para que depois da turbulência e da poeira que caiu aos nossos pés, uma lua ressuscite, por fim, no centro do nosso cérebro.
Acredito que depois do arrependimento, da solidão e da forma como sustentamos o nosso sangue, estaremos mais felizes nas águas do nosso sono, estaremos mais felizes e menos desencontrados sob a essência do tempo, estaremos verdadeiramente mais lúcidos entre a nitidez do olhar e os nossos impérios vivos.


Acredito que o mundo é o resto do chão onde me dissipei. .

22 fevereiro, 2010

Estilhaços

Assim te escrevo, com a chuva lá fora, com as canções destruídas ao colo, sem nunca tirar dos olhos a omnisciência do teu nome, a amplitude das tuas palavras, os vestígios que o amor nos deixa sempre que nos possui, sempre que nos arranca do solo e nos promete a imensidade de todas as coisas e de todas as subjectividades filosóficas com que sonhamos e que depois se incendeiam com toda a sua crueldade, entrelaçadas entre as recordações, a poesia e as lágrimas.
Eu bem sei que o amor é um esconderijo de espuma e de segredos; eu bem sei que o amor é a abstracção do que é concreto para resumir a totalidade do que existe e do ainda está por inventar. É uma desordem - é um rodopiar de fábulas e de vias lácteas entre as nossas mãos com todas as possibilidades e todas as respostas, com toda a ternura e todas as nuvens, com todas as consequências e todas as luas, numa só face, num só olhar sincero, fazendo-nos sentir as mãos trementes, fundidas, garantindo-nos que nunca nos abandonará sob o céu vazio e longínquo.
Mas então porque partis-te se eu mergulhei em todas as madrugadas que o teu corpo reinventava na sobriedade daquilo que é inefável e intrínseco? Porque partis-te pisando a terra húmida, deixando para trás as estrelas, deixando para trás o talismã caído, os lugares onde estivemos e que agora, lúcido e despedaçado, tento encontrar a sua fundamentação, as suas cores e cada curva dos teus movimentos ao longo desta hostilidade invencível; tentando unir cada pedaço e cada estrutura destes sentimentos que durante séculos viveram presos em mim e no meu oceano de sonhos e de espuma.
O que é o coração? O que é o seu interior crepuscular e intenso onde nos é traçado um caminho sem regresso pulsando sempre, com todo o sangue, a assombrosa carnalidade da vida? E quantos mais dias terei eu para enfrentar este abalo de enigmas e de teorias freudianas, impotentes e ao mesmo tempo vorazes na dissimulação de tudo ser real perante as minhas convicções e perante os quartos onde nos condenamos - os quartos entusiásticos onde ainda guardo todos os teus cometas e toda a nossa ardente cumplicidade que me sufoca, destruída por este nosso amor que agora é indeterminável, por este nosso amor que agora é opaco nos presídios do meu regaço vencido.
Por isso é que te escrevo, arrancando tudo do meu coração difuso, arrancando tudo do chão que ainda sobra em mim: cada palavra, cada lágrima, cada mágoa, arrancando todas as pedras que enterramos nos sonhos do infinito com toda a esperança e toda a sinceridade.
Por isso é que te escrevo, ouvindo a chuva lá fora, ouvindo a chuva lá fora arrastando-se pelos trilhos da minha coragem e da tua despedida. Por isso é que te escrevo, sem saber exactamente para onde vou, sem saber exactamente em que lugar poderei deixar a largura das tuas recordações, o poder do teu silêncio e a transparência violenta dos dias que se desfizeram entre os nossos dedos. Sem saber onde deixar a minha vida senão nas profundezas do teu coração.

20 fevereiro, 2010

A estrada vazia

O que somos senão uma combustão de sonhos recriados; fugindo por entre as limalhas ainda vivas dos restos de ontem, depois de ter-mos inventado doces palavras sobre o amor e nunca ter-mos encontrado um equilíbrio ou um paralelismo entre os nossos sentimentos e toda a nossa insustentável vida?
O que é este pêndulo, este tic-tac sem nome que nos persegue como uma sombra atroz acelerando os nossos passos sem se deixar dominar com as nossas teorias condensadas e voláteis? E para quê regressar se os nossos caminhos são indeterminados e os nossos corações fracos, e toda a nossa existência oscila entre as glórias e as derrotas, mas sobretudo, entre a loucura e a esperança de tudo renascer até desabar outra vez num caminho para o abismo e sem fim ao mesmo tempo.
Projectamos os nossos ideais, escondemos os nossos fantasmas, levitamos nos artifícios da luz e somos sempre indivisíveis, mesmo que em cada gomo de sensibilidade que nos arrancam a nossa vida perca um pouco da sua originalidade compulsiva e transcendente. Mesmo que nos levem alguns pedaços do que fomos e todo o nosso deslumbramento de lume encarcerado num só suspiro, numa só vitória, se entregue ao peso de um outro corpo - para arder.
Vivemos entre os mistérios das estradas que inventamos e o desdobramento das nossas conquistas. Vivemos de modo a que sobre o chão deixemos sempre um pouco de nós e, diante do mundo oco, a nossa alma transborde todos os desejos numa final consciência de pureza e absolutismo.
Então para quê duvidar? Então para quê fugir? Então para quê este espesso caminho que se acentua cada vez que o tentamos explicar, cada vez que se aproxima e nos absorve para dentro da sua criação cintilante e vertiginosa?
Somos impossíveis neste grito, neste rosto que estremece diante a estrada vazia. Nunca poderemos regressar, nunca poderemos esperar pelo nosso orgulho. Somos as noites escuras, a estrada que continua sempre sempre sempre diante de nós e a incompreensão da nossa angústia. Nós somos o prazer que nos evapora, somos todos os mundos unos e eléctricos num só corpo pousado sobre o universo. Nós somos os pés frios que caminham para a mais profunda libertação.