23 janeiro, 2010

Lisa

Ela cresceu entre as paredes daquela casa sem grande culpa de ter nascido sem mãe e sem pai. Apenas a avó a adormecia nas noites de Inverno, nas noites inquietas quando as sombras se ampliam pelo quarto e os ruídos se transformam em passos e sonhos.
Aos poucos, pela incerteza de tudo existir e depois da metamorfose do corpo lhe ter surpreendido com tanta exaltação, a sua vida tornava-se num estranho destino a que se habituara a viver. Era curioso como Lisa tinha crescido e se tinham delineado formas no seu retrato; como os seus sentimentos eram outros perante a vida e a sua misteriosa sina. Por outro lado, a avó que tivera sido mãe e pai, era uma mulher solitária que ficava envelhecendo à janela, a observar quem passava na rua, cada vez mais frágil e demente, cada vez mais sozinha e inútil, filha da uma neta que um dia criou na sua estrada de tristes canções e fins imprevisíveis.
Assim, a vida de Lisa se foi tornando num cárcere entre as paredes daquela casa de onde não podia fugir. Mas era a avó que protegeria no fim da solidão e de dias amargos sem paixões e sem grandes desejos. Apenas sorria aos vizinhos, com a avó doente na janela a perscrutar tudo, ela desamparada a caminho de um emprego invisível, sem grandes perguntas nem respostas, apenas o seu olhar azul numa luminosidade tímida, apenas o regresso a casa, o bater do portão e a avó, a febril avó entre as paredes silenciosas daquela casa cheirando a velas e a remédios.
Mas um dia quando chegou a casa, depois dos seus afazeres, encontrou a sua avó morta. No entanto, era como se as duas já o esperassem. Na noite anterior já as janelas estavam fechadas. A avó de Lisa pediu que ela se sentasse com ela. Desligaram a televisão e a avó começou a relatar a sua vida e a crónica de Lisa antes de a avó a ter abraçado. Contou-lhe que a sua mãe tivera fugido com um advogado para a América quando Íris ainda tinha dois anos, e o pai, «o teu pai filho destas rugas que podes tocar», morreu de saudade, como acontece aos cães.
Por isso, foi claro de entender de que se tratava de uma despedida. Uma despedida que incluía a avó mas também a casa e o seu passado. Porque depois de todos terem desaparecido e morrido perante a sorte e azar de um destino, Lisa fechou o portão para se livrar do cheiro a velas e a remédios, dos sentimentos amarrados aos velhos retratos, mas sobretudo, para se livrar dos fantasmas e das canções tristes que se foram entranhando nas paredes, como musgo.
Foi nesse mesmo instante que Lisa, pela primeira vez, sentiu com prazer a estranha sina da sua vida.

1 comentário:

  1. É tão difícil falar em despedidas... mas a vida é mesmo assim, feita de encontros e desencontros e por vezes é mesmo necessário uma despedida para que tudo fique na memória.
    Porque uma despedida não é uma zanga...e assim todas as coisas boas são relembradas ao passo que as más, essas são esquecidas, afundadas num pântano profundo, tão escuro que nunca mais voltam à nossa memória...
    A cabeça humana tem destas coisas...
    De qualquer modo, apesar de uma boa recordação estar inerente a uma despedida, elas são dolorosas,porque parece que a presença permanece, o cheiro fica preso a tudo o que nos liga a um alguém que se foi...
    Por vezes não percebemos a despedida,porque sabemos que podia ser tudo diferente, e lutamos para que ela não aconteça...acontece que por vezes ela é necessária para percebemos o real valor de quem está à nossa volta.

    Parvinho...não é uma despedida...é um até já...

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