23 janeiro, 2010

No meu jardim

Ouço o som dos teus passos no meu jardim. É a tua insónia que fala, reproduzindo a tua forma de habitar o meu pensamento.
Mas de qualquer modo, eu também não estaria aqui a cismar porque é que estas coisas acontecem, se tu não viesses, de mansinho, murmurar ao meu ouvido a locomotiva que te tomba do lado de lá onde eu nem sequer gesticulo um pronuncio deste mundo, girando agora, debaixo dos teus pés descalços. Assim é, e assim também nós inventamos brisas que deslizam sobre a superfície do que é matemático. Um estalar de folhas secas, os teus lábios feitos de pólvora, e ainda os restos, os restos dos ruídos das máquinas gerando dentro de ti, o vento que entra pelo friso das janelas do meu quarto, até à locomotiva se dissipar.
Dizes que é mais fácil não haver noite, como se de manhã eu já tivesse esquecido tudo. Vens e trazes na mão bocados de cinza que não são nem da tua esperança nem da tua luta. Apenas cinza. Cinzenta, fina e frágil. Podias dizer que eram lágrimas que eu acreditaria, mas não – simplesmente dizes que é cinza - e lanças tudo ao ar, transformando o meu jardim nos sonhos que deixei morrer.
Quando adormecer sobre a confusão do teu corpo, sei que devagarinho me irás perseguir, escondendo-te debaixo dos meus medos, dos meus risos, trepando pelos meus sonhos, e riscando um outro caminho à minha frente, que não o meu, propositadamente para que eu não me abandone.
Assim, vagarosamente, abro os olhos. Há bocados de imagens sucessivas da tua recordação contra a parede. Ligo a luz e dói-me a cabeça. Já é de manha e pouco dormi. És um fantasma que escavou o meu cérebro até aparecerem ruelas que nunca tive e te levam até onde eu estou.
Mas sabes, às vezes não acredito em nada do que tu fazes e falas, parece que não dormes - como eu- que inventas a tua existência para eu ficar a olhar-te, eléctrico, a ouvir a tua locomotiva, que aparece e desaparece com o som dos teus passos pelo meu oblíquo jardim.
Por isso, agito o copo com água e refaço o meu ser corpóreo. Vou até à varanda para ver se ainda te alcanço. Engulo todos os teus sintomas num só trago e experimento não te recordar. Piso um livro no chão e lembro-me de um instante em que adormeci. Não me lembro se depois ou acordei ou nem sequer cheguei a adormecer. Apenas me lembro de ti.
E de repente, tocas-me na face, dizes que tive um sono conturbado. Reconstróis os passos no jardim - e eu na cama, sabendo que és tu.
Mas logo depois, com o universo a dar cambalhotas, abruptamente me levanto, com os mesmos ideais de sempre, as mesmas perspectivas, o mesmo ser com as mesmas sensações e as mesmas teorias. Apenas com um pressentimento estranho dentro de mim, até dar comigo, frente a frente, num sonho qualquer, sabendo que durmo e o mundo lá fora está sossegado.
Sabendo que te esvais nas partículas de todo o universo se eu não conseguir acordar agora.

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