10 setembro, 2012

Nuvem




















Não sei como aconteceu, embora fosse nuvem
sopravas à superfície da minha pele;
e os dedos e a língua sem palavras repetidamente
pelos clarões da minha surda nudez, tu sabias,
era intenso e demorado o mundo adentro.

Pode ser o amor o resto; mas eu fechava os olhos
e o mar bombeava inteiro dentro de mim ilusões
e a etérea sensação de espasmo ou espírito
que o teu toque proporciona: entendes?

Não sei como aconteceu, e talvez seja tarde
para explicar, apenas respiravas e o céu abria-se,
lembro-me ainda  – e olho para o tecto sem saber se possuo
o poder de acreditar um dia mais.

Tento escutar-me mas sinto sonhos subindo sempre 
pelas paredes, pelas mãos e pelo silêncio; os sonhos 
onde habitavas fosse eu uma chuva repleta pelo teu cabelo 
até inundar o rosto. 

Anoitece dentro do meu quarto, mas as luzes,
mesmo ténues, fazem arder a tua poesia
desprotegida em pedaços pelas imensidões do ar.
Foste tu que me ensinaste o corpo
e os sonhos que transformavas -vejo-os,
até hoje, tremeluzindo ao ritmo da minha respiração.

Sabes bem que foi essa a tua ternura: a inquietude
de tudo ser água e névoa sobre a argumentação
de uma existência; mesmo que o amor seja o resto
ou eu não explique as estrelas, os teus lábios, o teu sopro
nem mesmo as lembranças - porque fui nuvem.

Mesmo assim, deixei-me nascer. 


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