14 fevereiro, 2010

As fadas

Abris-te as asas e voas-te, como os pássaros no seu cio inconformado, no seu segredo que te sussurrava assim: «se ficares, tu terás uma porta para ser e outra para ser outra, na terra inóspita e hipócrita, tu terás a vontade prometida e na fera da tua laia a recompensa da mágoa ou da liberdade. Abre as asas e voa pelo destino da tua melancólica ventura, santa das trevas num espírito queimado.»
O piano anunciava as fadas à superfície do mar, e tu foste atrás dos ventos recolhendo os orgasmos entretidos a recompor a mundo. Que filosofia essa, a dos ventres estonteados pelos caminhos confusos que a história escarafunchou nas cicatrizes do teu retrato...
Só mais adiante, já estarias fundida nas margens das paredes do teu crânio, louca e desonrada pelas tuas emoções, se ouviu de muito longe a sirene do sangue. Quem eram? Os cavalos, as florestas, o chão e os tambores. «Cala os ânimos, sua ingrata. Começou a tua febre.»
Mas não. Eram apenas os teus sentidos flamejando contra ti enquanto na janela te olhavam, sem intuição nem arestas. Vazios.
Mas depressa te apanharam as fadas e os dedos que falam. Pelos caminhos da tua vagina, foi por elas – essas fadas invisíveis – foi por elas que perdes-te o respeito, a verdade mentira absoluta da coragem da humanidade. Entre os romances que se assemelham à tua respiração e às tuas lágrimas ateadas pelo chão, as tuas asas voavam por páginas que engoliste nos movimentos da tua fecundação. O que seria?
As fadas que para ti sempre foram verdadeiras Zaratrustas das tuas cavernas sem cópula; as fadas que viviam à beira mar, são agora a tua pose inquieta à procura de uma estrela para adormeceres sem chorarem os teus olhos. São o teu amor que não respondeu. São as tuas mãos descuidadas, o teu sangue que ferve nas tuas estátuas e na consciência dos quartos mudos. E, só à noite, sob a angústia da lua, despes o teu manto de covardia - e danças.
Que desta vez as fadas não te acordem. Que não te batam à porta para falares em vencer ou confessares os teus pecados e as tuas sombras. Queres estar sozinha na realidade de um sonho teu. Um sonho com um piano que vem, devagarinho, sobre as feridas do teu corpo, do mesmo modo como tu sonhas a única verdade do mundo.

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