22 fevereiro, 2010

Estilhaços

Assim te escrevo, com a chuva lá fora, com as canções destruídas ao colo, sem nunca tirar dos olhos a omnisciência do teu nome, a amplitude das tuas palavras, os vestígios que o amor nos deixa sempre que nos possui, sempre que nos arranca do solo e nos promete a imensidade de todas as coisas e de todas as subjectividades filosóficas com que sonhamos e que depois se incendeiam com toda a sua crueldade, entrelaçadas entre as recordações, a poesia e as lágrimas.
Eu bem sei que o amor é um esconderijo de espuma e de segredos; eu bem sei que o amor é a abstracção do que é concreto para resumir a totalidade do que existe e do ainda está por inventar. É uma desordem - é um rodopiar de fábulas e de vias lácteas entre as nossas mãos com todas as possibilidades e todas as respostas, com toda a ternura e todas as nuvens, com todas as consequências e todas as luas, numa só face, num só olhar sincero, fazendo-nos sentir as mãos trementes, fundidas, garantindo-nos que nunca nos abandonará sob o céu vazio e longínquo.
Mas então porque partis-te se eu mergulhei em todas as madrugadas que o teu corpo reinventava na sobriedade daquilo que é inefável e intrínseco? Porque partis-te pisando a terra húmida, deixando para trás as estrelas, deixando para trás o talismã caído, os lugares onde estivemos e que agora, lúcido e despedaçado, tento encontrar a sua fundamentação, as suas cores e cada curva dos teus movimentos ao longo desta hostilidade invencível; tentando unir cada pedaço e cada estrutura destes sentimentos que durante séculos viveram presos em mim e no meu oceano de sonhos e de espuma.
O que é o coração? O que é o seu interior crepuscular e intenso onde nos é traçado um caminho sem regresso pulsando sempre, com todo o sangue, a assombrosa carnalidade da vida? E quantos mais dias terei eu para enfrentar este abalo de enigmas e de teorias freudianas, impotentes e ao mesmo tempo vorazes na dissimulação de tudo ser real perante as minhas convicções e perante os quartos onde nos condenamos - os quartos entusiásticos onde ainda guardo todos os teus cometas e toda a nossa ardente cumplicidade que me sufoca, destruída por este nosso amor que agora é indeterminável, por este nosso amor que agora é opaco nos presídios do meu regaço vencido.
Por isso é que te escrevo, arrancando tudo do meu coração difuso, arrancando tudo do chão que ainda sobra em mim: cada palavra, cada lágrima, cada mágoa, arrancando todas as pedras que enterramos nos sonhos do infinito com toda a esperança e toda a sinceridade.
Por isso é que te escrevo, ouvindo a chuva lá fora, ouvindo a chuva lá fora arrastando-se pelos trilhos da minha coragem e da tua despedida. Por isso é que te escrevo, sem saber exactamente para onde vou, sem saber exactamente em que lugar poderei deixar a largura das tuas recordações, o poder do teu silêncio e a transparência violenta dos dias que se desfizeram entre os nossos dedos. Sem saber onde deixar a minha vida senão nas profundezas do teu coração.

3 comentários:

  1. Gostei do teu texto.
    O amor é um sentimento invulgarmente complexo na sua aparente simplicidade.
    Muitas vezes amar faz sofrer mas mais sofre quem nunca amou.
    Deixo um abraço

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  2. A chuva lá fora... Sim, tenho agora podido ouvi-la, nitidamente a chocar com a janela, ou a escorrer-me pelos cabelos soltos na ânsia de me lavar a alma. Enquanto me perco na ausência gélida das nossas horas, dou-me conta de que a lua já não se mostra da mesma maneira, ela esconde-se, mas sabemos que está lá. Já essas estrelas a que te referes, se me pertencem já não sei, porque me perdi na orbita, porque me escapaste em alguma esquina do nosso caminho. Não sei ainda admitir se este pedaço que me deixa incompleta é a saudade ou somente a desilusão. Ainda não sei qual é o lugar onde estou ou para onde vou, mas sei em algum lugar, naquele que foi o nosso mundo, foi bom estar contigo.

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  3. Bonito e sensivel texto. Ivo, aprimoras-te em pulsões de Atlântida perdida e buscas a Deusa no seu esplendor.Uma chuva de miosótis e ais de alcova temperam a tua espera. És um poeta que tem a foicinha que colhe o visco, andas próximo dos anciãos que falam com o poente.
    Prosegue a tus busca incessante...

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