04 fevereiro, 2010

A menina dos devaneios com sabor a canela

A menina dos devaneios com sabor a canela gostava de se pentear antes de cair na cama. Fingia que a insustentável relação dos sonhos com a vida era uma circunstância da qual só os poetas podiam usufruir, mas era mentira. Caída na cama, ainda trazia as mãos riscadas de amor e, com alguma intensidade, fechava-as na esperança que o número sete lhe trouxesse sorte, ao mesmo tempo que sussurrava poemas de Shakespeare.
Tinha mudado de quarto e ainda lhe custou um pouco a adormecer. Ás vezes, durante o dia, conversava com um amigo imaginário que lhe falava sobre as estrelas no alto, girando e gravitando, como se quisessem ser apanhadas. Isto fazia-a rir. Agora também se ria, lembrando-se destes instantes e mordendo a almofada para não acordar ninguém.
Quando o despertador tocou, já era tarde. Tinha um exame da faculdade para fazer e ainda sentia as pestanas pesadas, o corpo extasiado de sonhos. Se pudesse, estaria defronte para o oceano sem pensar em mais nada. Mas nessa mesma ocasião, levantou-se de sobressalto e só deu por si quando já estava a almoçar num restaurante italiano, com um ruído de uma orquestra que combinava com as luminosidades entrando pela janela, flutuantes e melodiosas.
Voltou para casa dentro de um autocarro empanturrado de gente. Já nem se lembrava que tinha feito o exame nem o dia em que estava. Sentia-se um pouco abafada devido ao barulho e ao obtuso preenchimento do autocarro anulando o oxigénio. A menina dos devaneios com sabor a canela não era menina de grandes angústias, pelo contrário: era mágica, enfeitiçava tudo com o desenho do seu sorriso, aquele sorriso onde as palavras brilham, onde os seus lábios estremecem a paisagem e vão levantando devagarinho algumas partículas de contentamento das gastas cores do solo, arrastando com o seu corpo solto os melhores dias do mundo.
Mas naquele momento sentia-se estranha. Não lhe apetecia voltar para casa. Queria rir-se. «Onde andará o meu amigo imaginário?», pensou.
Saiu algumas paragens antes de casa e decidiu ir ao cinema. Isolou-se a deslumbrar uma comédia romântica que a deixou a pensar sobre o amor, mas sobretudo sobre as relações com falta de diálogo e as consecutivas traições. E, como no final, tudo se organizou, mesmo quando tudo parecia dar errado, reflectia. Reflectia a caminho de casa, concentrada, sem se lembrar que caminhava a pé, atravessando o bosque florido, mas cinzento anunciando a chuva e a noite que se estendia sobre as árvores.
Quando olhou para a sua frente avistou, vertical e corpóreo, o seu amigo imaginário. Como podia ser real? Esperou que ele falasse, na dúvida. Ele não disse nada, apenas a olhava, profundamente e fazendo soltar a sua essência habitual, mas desta vez, num espaço concreto, num espaço real, com uma cor profusa e intermitente. Era ele sim, não restavam dúvidas. De súbito, numa voz ligeiramente grave, ouviu: «menina dos devaneios com sabor a canela», e sem se conter, sorriu.
Depressa seguiu o amigo imaginário. Ele mostrou-lhe onde vivia: uma casa com formas de árvore. Era, de facto, absolutamente incrível, para a menina dos devaneios com sabor a canela, a arquitectura daquele lugar.
Sentou-se no mesmo lugar onde ele costumava conversar com ela, e sentiu dentro de si um repouso interior fora do vulgar; sentia-se sonhar, ao contrário de quando falavam por aqueles métodos inexplicáveis. Pela primeira vez, levou a sua mão ao rosto do amigo imaginário; pela primeira vez sentiu o toque, o mistério da ordem física, a fusão da carne descendo todas as vias lácteas até àquele lugar. Sentia na sua mão, o sangue do amigo imaginário a correr rápido, mas inteiro e puro. Pairava um silêncio, o olhar dele sobre o seu. Não sabia o que dizer, nem o que pensar. Levou a sua boca até aos lábios dele e beijou-o dissolvendo todos os seus sonhos e toda a sua febre. Pensou, de repente, que estava num conto de fadas e que ele poderia desaparecer - mas não. Depois olhou bem fundo dos olhos do amigo imaginário, como se lhe procurasse a alma. Sentiu o sabor da canela na língua e saiu.
A caminho de casa, já quase a noite se tivera debruçado sobre o bosque, movia-se em passos velozes fazendo estalar as folhas caídas. Algumas gotas de chuva caíram entrelaçando-se no seu cabelo e o mundo parecia-lhe estranhamente largo e absoluto. E assim, enquanto cantarolava, «One love, one life, it´s one need in the night. One love, we get to share it. Leaves you, darling, if you don´t care for it...», anoiteceu.
Antes de ir dormir, a menina dos devaneios com sabor a canela, penteou-se como era frequente e foi à janela. Podia ver as estrelas no alto, girando e gravitando. Mas desta vez não a faziam dar gargalhadas; deixavam-na antes com uma sensação de prazer, uma sensação de magia que deslizava através do seu corpo, uma luz branca que se desfazia nos feitiços do seu sorriso…

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