18 fevereiro, 2010

A semente


Olhou para o fundo da sala e, com algum desapontamento, não se conseguia mover do chão para a porta. Trazia a cabeça pesada, as paredes ondulavam e Lydia mergulhava na alcatifa verde absorvida dolorosamente para o escuro, o esquecimento, o nada, sem conseguir gritar.
Ouvia vozes rápidas e ininteligíveis, sentia alguém perto que depois fugiu – quem era? Correu para apanhar o vulto desaparecendo entre as circunferências amarelas que se desfaziam como espuma na atmosfera. Estava a sonhar - sabia-o. E sem nenhum prazer, corria num fundo sombrio, depois branco, muito branco, com o seu olhar focando a perspectiva rasa dos seus próprios pés, alternados, de trás para a frente, fugindo agora do mesmo vulto que antes perseguira, ainda enjoada, com vontade de acordar antes que vomitasse na alcatifa.
Nem sabia porque estava preocupada com a alcatifa se, na verdade, estava a sonhar. Mas sentia-se bem melhor: o vulto tinha desaparecido e já não se sentia enjoada, apenas um pouco frágil e dormente.
Olhou para o pátio, havia laranjas no chão, era de tarde - talvez domingo - e Teresa estava de costas, sentada num banco e em cuecas - adivinhava-se que descascava laranjas enquanto que um cão, nítido e nervoso, amontoava as cascas num canto. Lydia foi ter com Teresa. Mas quando olhou directamente para o seu rosto, Teresa tinha as mãos cobrindo as lágrimas.
Depois Teresa retirou as mãos do rosto e via-se-lhe os olhos húmidos, o rosto pálido, olhando directamente para os olhos de Lydia, como se a quisesse acusar de alguma coisa. Ficaram assim alguns momentos. Lydia sentiu o pêlo do cão deslizar por entre as suas pernas, sentiu o focinho húmido a farejar-lhe a pele até que depois o viu, rigidamente sentado, ao lado de Teresa, ainda marcada de lágrimas olhando para Lydia com o mesmo aspecto de acusação.
- Sabes porque estou aqui, não sabes? – Perguntou Teresa, rasgando o silêncio. – Ando à procura da semente que tu e o vulto esconderam durante todo este tempo. Onde está?... Afinal sou tua mãe, porque me escondes estas coisas, filha? Estou tão triste, tão só… Quero a minha semente.
Lydia nem sabia de que semente Teresa falava. E porque dizia ela que era sua mãe? Estava transtornada agora. Sentia-se nervosa, as pernas tremiam, Teresa olhava-a e o cão ao lado, ainda rígido, como se a quisesse proteger.
A consciência de Lydia parecia torcer o rosto de Teresa. « Devo estar a sonhar», pensou. «Seja o que for, a Teresa não é minha mãe. Nem minha mãe nem coisa nenhuma. Quem é esta mulher que está aqui a acusar-me de ter escondido a semente? Que semente? Um vulto? O único vulto que de que me lembro estava neste sonho. Perseguia-o, perseguia-me. Aconteceu a momentos atrás e metia-me medo.»
- Teresa, tu não és a minha mãe.
Lydia via o rosto de Teresa a gritar-lhe. O cão ladrava agora, furioso, levantando o focinho para que Lydia lhe pudesse ver os olhos e os dentes. Embora não ouvisse nenhum ruído, como se estivesse do lado de lá, de repente o lugar à sua volta rodopiava num barulho insuportável: os gritos de Teresa, «eu sou tua mãe», a semente, o vulto, o cão a ladrar irrequieto, sobretudo a acusação e o absurdo. Pensou que estava a enlouquecer ao mesmo tempo que se sentia nos braços de alguém que não conseguia ver. Onde estava? O que me está a acontecer? Quem sou?
Um sono profundo capturou-a. Os gritos eram agora ecos que se desfaziam entre uma imagem negra, uma atmosfera muito escura e fria que a envolvia. Levitava.
Deixava de pensar, de sentir, esquecia-se de si mesma; tudo se desfragmentava enquanto a realidade se dissipava fazendo evaporar o sonho, as emoções, os sentidos; fazendo evaporar qualquer crepitação de ruído, algum vestígio de imagem, de pensamento ou de sensação, apenas um vazio sobre a escuridão, e o silêncio. O silêncio.
Quando abriu os olhos, viu uma luz branca e obliqua perfurando o espaço. Cheirava a hospital, vultos brancos moviam-se, havia barulhos de máquinas gravitando no ar. Um rosto do alto vigiou-lhe os olhos, fez-lhe algumas perguntas e, à medida que Lydia respondia a sua consciência tornava-se mais clara. As formas equilibravam-se agora com o entendimento. Tudo se tornava mais lúcido embora ainda não tivesse percebido bem o que acontecera. «Quando é que o meu pai chega?», quis perguntar. Mas o enfermeiro colocou-lhe um comprimido amargo na boca que a fez voltar a adormecer,
Mais de um dia se passou, talvez se tenham passado dois ou três, sempre com visitas de enfermeiros que a entretinham e a animavam naquele lugar clandestino do mundo. Quando estava sozinha, tentava recompor a memória exacta do que se tivera sucedido. Reconstruía peça por peça a realidade e, aos poucos, a sua consciência deixava-a no mesmo ponto onde ela tivera ficado.
Quando o pai chegou, já Lydia reconstruíra a mesma expressão acabrunhada de alguns dias atrás. O pai abriu a porta, Lydia olhou-a de alto a baixo e parecia anoitecer lá fora. As luzes delicadas e ténues das lâmpadas quase não a deixavam visualizar o pai. Apenas um esboço incompleto do pai à porta. Um esboço extático e sem rosto.
Um leve odor de comida movia-se no ar e isso deixava-a extremamente solitária naquele quarto. O pai estava parado à porta e ela sentia vontade de voltar a nascer de novo. Ouviu o bater brando da porta e olhou à sua volta. Estava no seu quarto. Ali estava o seu quarto, a sua cama, os papéis na secretária, o corpo pousado na cama, lânguido e estendido.
Olhou de novo o pai. Agora já lhe avistava o rosto. Ele deu breves e demorados passos e sentou-se na berma da cama. Olhou-o nos olhos por uma grande quantidade de tempo e em silêncio. A imagem do rosto do pai estava trémula e por vezes desfocada. O pai olhava-a, perscrutando os traços do seu rosto, enquanto Lydia sentia algumas lágrimas na face que não conseguia conter, cada vez mais soluçantes, deixando-a sem forças para dizer o quer que fosse.
O pai com a ponta dos dedos limpou-lhe as lágrimas e deslizou os dedos pelas linhas onduladas do rosto de Lydia. Ela sentia os dedos moverem-se pelos olhos, escorregando pela face, pelo queixo, e muito levemente, pela boca, desenhando os contornos dos lábios com uma ternura inexplicável.
- Está tudo bem Lydia, não te preocupes. Estamos salvos.
Quando o pai saiu, Lydia virou-se para o lado da mesinha de cabeceira e viu pousado um retrato de quando era criança. A imagem transmitia uma sensação de felicidade imensa. «Era tão feliz nesta altura», pensou.
Levantou-se da cama, abriu a porta e andou em pés descalços ao longo do corredor. Alguns enfermeiros andavam mudos de um lado para o outro e havia pessoas estranhas que não conhecia de lado nenhum que deambulavam pelo corredor e que depois se perdiam por uma sala ampla, quase vazia, que tinha uma televisão acesa e sem som.
Lydia foi-se sentar perto de uma senhora velha que olhava para a janela num canto mais escuro da sala. Olhou-a por uns instantes e depois disse:
- Quero ir-me embora. Por acaso sabe-me dizer como faço?
A velha começou-se a rir as gargalhadas e Lydia teve vontade de lhe dar uma bofetada. Mas depois a velha calou-se e cobriu o rosto com uma pose séria, como se lhe fosse dar um conselho
- Lydia, Lydia, para onde é que tu queres ir? Esta é a nossa casa há muito tempo. Somos loucas, ou pelo menos, é assim que somos tratadas – mulheres que ao longo da vida enlouqueceram. Eu sei que às vezes é difícil permanecer aqui tanto tempo, tomando comprimidos que por vezes não nos deixam melhores.
- Mas porque motivo estou aqui? Eu não estou louca… O que aconteceu para acharem que enlouqueci? Apenas quero voltar para casa e contar tudo à minha mãe.
- Há quantos anos já estás aqui? Há quantos anos ninguém te vem visitar? Olha bem para ti, estás quase tão velha quanto eu. Para onde queres ir agora? Deixa-te estar aqui que estás melhor. Estamos presas neste hospital, mas pelo menos morreremos sossegadas.
Depois de uma pausa, finalizou
- Bem, agora se me permites, vou descansar.
Lydia olhou pela janela, podia ver os candeeiros iluminando o jardim lá em baixo. Avistava ao fundo pequenas luzes de casas distantes e quase sentia a brisa que estava lá fora enrolando-se no seu pescoço. Olhou para as suas mãos que estavam brancas e enrugadas. A alcatifa era verde, os enfermeiros faziam o seu serviço. A televisão era a mesma onde via as telenovelas e as paredes essas, com os mesmos quadros, a mesma melancolia. A atmosfera era a do costume e tudo, tudo lhe era agora mais familiar.
Dois enfermeiros colocaram-se do seu lado, como se a quisessem ajudar a andar, e levaram-na para o quarto. Deitaram-na, deram-lhe mais um comprimido azedo e despediram-se.
Lydia voltou a pegar no retrato, olhou o seu rosto infantil com um sorriso iluminado e sentiu que aquela imagem pertencia a um lugar longínquo, um lugar inalcançável. Virou o retrato e nas suas costas leu:
«Lydia, como o prometido, aqui está uma fotografia da tua infância. Penso que terá sido tirada no teu sétimo aniversário, estavas linda. Um beijo da tua mãe, Teresa».

1 comentário:

  1. Este talvez, fora dos textos mais bonitos e marcantes que alguma vez li. É dos textos que no momento não se dá muita importância, mas que depois à noite,quando estamos em silêncio, a história recomeça, desta vez apenas na nossa cabeça...
    Tenho a certeza que esta noite vai ser uma dessas. Amanhã dir-te-ei o que era a semente.
    Beijinhos, Patrícia (:

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